Mais do que um número nas estatísticas da polícia, um furto pode representar a interrupção de planos construídos durante anos, comprometer o sustento de uma família ou impedir que alguém consiga trabalhar. Depois de mostrar a história do casal que teve materiais de construção levados e viu o sonho da casa própria ser abalado, o Campo Grande News ouviu outras vítimas para mostrar quem está por trás dos boletins de ocorrência registrados diariamente na Capital. O técnico de enfermagem Lúcio Dias Neto, de 29 anos, sentiu o peso desse prejuízo quando teve sua moto, uma Honda CG 160 Fan , placa QAY7F45, furtada nesta quarta-feira (6) enquanto estava estacionada na Rua Bahia, em frente à Sesau (Secretaria Municipal de Saúde). Quando voltou ao local, o veículo havia desaparecido. "É difícil a situação. Eu trabalho em dois serviços e agora estou me virando para conseguir ir trabalhar. Estou indo de ônibus. A ausência da moto significa mais tempo de deslocamento entre os meus serviços", conta. A motocicleta foi comprada em 2022, depois de dois anos de economia para juntar o valor da entrada e financiar o restante. Mesmo sem o veículo, as parcelas continuam chegando. "Planejei muito para conquistar a moto. Fiquei dois anos economizando para conseguir comprar. Ainda faltam 18 parcelas de mais de R$ 700. Espero recuperar, porque a polícia ainda está investigando", diz. Outra vítima foi João Victor Dias Souza, de 22 anos, técnico de suporte júnior, que teve a moto furtada, uma Honda Titan 150, placa HSO-8580, no dia 18 de junho, nas proximidades do estacionamento do Carrefour. Avaliada em cerca de R$ 8 mil, a motocicleta havia sido adquirida após um ano de planejamento e por meio de financiamento. “Utilizava a minha moto todos os dias para locomoção, principalmente para ir ao trabalho, e também atendia às necessidades de familiares. Com o furto, a rotina mudou completamente”. "Afetou minha renda e também a locomoção dos meus parentes. Hoje estou usando o carro da minha mãe, o que acaba prejudicando a rotina dela também", completa o técnico. Além dos transtornos diários, o prejuízo financeiro fez com que um objetivo importante precisasse ser adiado. "Tive que adiar o plano da casa própria, tenho que distribuir a economia com outros gastos agora. E agora a minha rotina ficou bastante apertada e imprevisível". Até o momento, a motocicleta não foi recuperada e ninguém foi identificado pelo crime. No Centro de Campo Grande, outro crime trouxe prejuízos diferentes, mas igualmente pesados. A loja Patotinha Moda Infantil foi alvo de duas ações criminosas em menos de 24 horas. Na primeira, na sexta-feira (3), houve danos na estrutura. No sábado (4), os funcionários encontraram o cenário ainda pior. "A outra porta estava totalmente quebrada, a coluna destruída, a lateral danificada e toda a fiação de cobre tinha sido roubada. Nem deu tempo de nos recuperar de um incidente e já aconteceu outro", relata a gerente Fatin Ali, de 24 anos. Além dos danos à estrutura, a loja ficou sem energia elétrica, impossibilitando o funcionamento dos sistemas e das máquinas. O problema aconteceu justamente no sábado, considerado o melhor dia para o comércio. "Chegar para trabalhar e encontrar essa situação é assustador, ainda mais em pleno centro da cidade. Ficamos sem energia e dependemos de sistema e de máquinas para trabalhar. Tivemos que chamar um técnico para restabelecer tudo. Sábado é o melhor dia para o comércio, então perder esse dia é muito difícil." Segundo a gerente, o prejuízo não se resume às horas sem vender. A empresa também precisou arcar com os custos dos reparos na rede elétrica e na estrutura danificada. "O prejuízo não é só pelas horas sem vender, mas também pelo gasto para consertar tudo. Isso aconteceu por falta de segurança. É desanimador". Para tentar evitar novos furtos, a loja instalou cadeados e reforçou a proteção do imóvel e da caixa onde ficam os fios. Ainda assim, o problema continua recorrente. "Eles arrombaram o local para roubar os fios. Até os cabos de internet são furtados. Faz anos que sofremos com isso. A internet vive caindo porque os fios são roubados e sempre precisamos chamar a operadora para restabelecer o serviço. É muito difícil". Em comum, as duas histórias mostram que, por trás de cada boletim de ocorrência, existe uma rotina interrompida. Seja a moto que garante o deslocamento para o trabalho ou a estrutura de um comércio que depende de energia para funcionar, os furtos deixam marcas que vão muito além do valor dos objetos levados.


