O último voo de Lydia Theresia Möcklinghoff tinha como destino um lugar que, por 16 anos, foi cenário de sua vida, laboratório a céu aberto e ponto de partida para descobertas levadas do Pantanal ao mundo. Na manhã de 3 de julho, a pesquisadora alemã seguia para a Fazenda Barranco Alto, em Aquidauana, quando o avião em que estava caiu poucos minutos depois da decolagem, em Campo Grande. Lydia não chegou ao destino. Mas, uma semana depois do acidente, é de lá que vem uma homenagem à pesquisadora de 45 anos, lembrada por uma longa trajetória em solo sul-mato-grossense. “A paixão de Lydia por tamanduás a trouxe para trabalhar como pesquisadora na Fazenda Barranco Alto em 2009”, escreveu a propriedade em uma publicação nas redes sociais. Em seguida, resumiu em poucas palavras o perfil de uma cientista que fez do Pantanal seu campo de trabalho e lar: “Ela era uma 'mateira destemida'”. Ao longo dos 16 anos seguintes, segundo a fazenda, Lydia reuniu dados inéditos que ajudaram a ampliar o conhecimento sobre a ecologia e o comportamento do tamanduá-bandeira. Não se limitou, porém, ao meio acadêmico. Além de zoóloga, ecóloga tropical e bióloga comportamental, a alemã era jornalista científica e transformou sua pesquisa em histórias acessíveis. “Além de cientista, Lydia era uma comunicadora nata. Por meio de apresentações, mídias sociais, podcasts e livros, ela transmitia ao mundo, com muito humor, suas descobertas pantaneiras”, completou a homenagem. A Barranco Alto fica às margens do Rio Negro e se apresenta como uma propriedade familiar voltada também à conservação, à pesquisa científica e ao turismo de pequena escala. Mantém parcerias com universidades de vários países e recebe pesquisadores para trabalhos de campo sobre a fauna e o ecossistema pantaneiros. O próprio site da fazenda ainda traz Lydia entre os nomes creditados pelas fotografias que ilustram a página. A pesquisadora trabalhou na observação de espécie que acabou se tornando inseparável de sua trajetória: o tamanduá-bandeira, um dos símbolos do Pantanal. O animal aparece em destaque na capa de um dos livros escritos por ela. Exemplares da obra foram encontrados em meio aos destroços do avião após o acidente. Naquele cenário de destruição, os livros permaneceram como o vestígio silencioso da vida que Lydia havia construído no Pantanal. Publicado em alemão, o livro Ich glaub, mein Puma pfeift: Als Forscherin im reichsten Tierparadies der Welt relata as aventuras da cientista no Brasil. Em tradução literal, o título seria algo próximo de "Acho que meu puma está assobiando: como pesquisadora no mais rico paraíso animal do mundo". A expressão faz uma brincadeira alemã de espanto e, apesar da referência ao puma, é o tamanduá-bandeira que estampa a primeira página. A sinopse da obra já dava pistas sobre a relação construída entre Lydia e o Pantanal. Quando o livro foi publicado, ela dizia viver havia nove anos em uma fazenda no meio da natureza brasileira, realizando pesquisas de campo com tamanduás. Lydia tinha mestrado em zoologia pela Universidade de Würzburgo e fazia doutorado na Universidade de Bonn, com uma tese dedicada à conservação de mamíferos no Pantanal. Também integrava grupos de pesquisa na Alemanha. A última viagem – Na manhã de 3 de julho, Lydia embarcou em um bimotor Neiva EMB-810D, fabricado em 1983, acompanhada do piloto Henrique Martin. A aeronave decolou do Aeródromo Estância Santa Maria, em Campo Grande, e tinha a Fazenda Barranco Alto como destino. O voo durou pouco. Segundo relatório preliminar do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), a aeronave perdeu o controle durante a subida inicial e caiu em uma área de mata, na área rural da Capital. Lydia e Henrique morreram no local. O órgão ainda não determinou a causa do acidente e ressaltou que a investigação permanece em andamento. Na Barranco Alto, onde pesquisas sobre ariranhas, onças e outras espécies dividem espaço com o cotidiano da fazenda, a passagem de Lydia também ficou registrada. E não apenas nos arquivos científicos. O próprio site da propriedade ainda exibe fotografias feitas por ela, como se seus olhos continuassem ajudando outras pessoas a enxergar o Pantanal.

