Copa do Mundo, a minha série favorita de 4 em 4 anos

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Porque ainda amo a Copa do Mundo? Recomenda a técnica jornalística que se revele já nas primeiras frases de um texto o aspecto mais interessante para o leitor, a grande jogada, capaz de atrair sua atenção para prosseguir e querer apreciar o resto. Mas este sob os seus olhos desobedece à regra, porque não tem exatamente um fato. É um sentimento em palavras, por assim dizer, sobre o evento ao qual é difícil ficar imune: a Copa do Mundo. Se te fizer avançar até o fim da partida, você mesmo decide o que é o “gancho”, fechado? Começo com o que — a meu ver — é importante registrar: a ressalva de estar escrevendo ciente, escolada, do quanto a Copa do Mundo é o orgasmo de um sistema bilionário salpicado de complexidades, comandado por gente interessada em todos os tipos de poderes, menos em promover o esporte e os futebolistas ou ainda o congraçamento das nações etc. Trata-se, na real, de uma artilharia de fama, poder e, obviamente, dinheiro, bem distante dos princípios edificantes propagandeados pela Fifa e seus financiadores. Não fosse assim, como explicar a conivência dos organizadores com os absurdos e humilhações impostos pelos Estados Unidos da América. Tô ligada, tá? Digo desde já para tentar me anistiar da acusação de ser uma fã alienada de futebol, essa indústria de bilionários, muitos deles ignorantes de qualquer sentido de ética e responsabilidade por seu poder de influenciar pessoas e movimentar quantias astronômicas, atraindo, como é de lei, os vermes ávidos por espalhar corrupção por onde rastejam. Alguns até dançam sobre a mesa gringa, mesmo tendo deixado seu trabalho como senador aqui no Brasil. Eu tô vendo, parceiro! Em 2026, o lado predador do maior evento de um único esporte está ainda mais aparente, agressivo. Está vergonhoso o assédio do público pelas apostas, a promessa de grana fácil, a custos e prejuízos insondáveis, como se fosse fácil como cobrar um pênalti para o artilheiro. Dá dor física de ver e ouvir; sem plataforma inocente, todas sucumbiram à $edução das bets. Esquece! Dito tudo isso, sinto-me mais ou menos alforriada para ser contraditória e derreter-me: quem criou e os sucessores responsáveis por colocar a bola para rolar nesse torneio a cada quatro anos merecem meu abraço virtual. Copa do Mundo é muito massa! Para melhorar, essa me pegou em um interstício profissional, com tempo para ver jogos e escrever umas bobagens emocionadas. É Copa do Mundo, amigo! Para mim, é a 12ª temporada. Como brasileira mediana, tenho memórias alegres, as vitórias — de 1994, num frio de lascar aqui, enquanto nos EUA até brasileiro reclamava do calor; e de 2002, acompanhada dentro de uma redação, não sem aquela euforia, como se a gente pudesse esquecer as coisas chatas da vida. Fomos NÓS os campeões. A gente foi penta pelos pés de Ronaldo, aquele mesmo sem jogar havia dois anos, uma incógnita depois de uma lesão horrorosa de assistir, e pior ainda de curar. Ao final, andávamos de peito inflado, como se carregássemos aquela taça esquisita na mão, ao som de pagode puxado por Ronaldinho Gaúcho. Como era gostoso o meu Brasil, na época queridinho internacional também em outras áreas. Que saudades do meu ex! De outro lado, existem, em maior número e cicatrizes, as memórias negativas. Tal qual tívessemos perdido algo muitíssimo precioso, o sofrimento era genuíno e inexplicável pelo desenlace negativo da jornada profissional daqueles homens de amarelo. Tenho um risco de lembrança de 1978, aos 6 anos, e eles envolvem gente revoltada com a arbitragem. Os flashes são mais vivos de 1982, quando, da cadeira de fio na sala de casa, passei a nutrir ranço desmedido pelo italiano Paolo Rossi. Depois, em 1986, na adolescência, escolhi o francês Platini como vilão, sem perder de vista uma invejinha de Maradona e sua "mão de Deus"; em 1990, foi o técnico Lazaroni o alvo da insatisfação. O time era ruim demais, segundo me lembro. Em todas as situações, acredito ter havido choro. A edição de 1998, minha primeira Copa como jornalista, está no meu varal de slides sentimentais como a maior tragédia do esporte. Os últimos campeões, donos do Fenômeno do momento, fomos de salto alto (eu, pelo menos) para a final com a França. Deu-se toda a história repisada incansavelmente. Não preciso nem consultar o Google para vislumbrar a desoladora e midiática imagem de R9 e suas chuteiras penduradas no ombro, eternizadas como um símbolo da derrota em Paris. Aliás, de lá para cá, não tem mais chuteira discreta, né? Inaugurou-se ali a era dos calçados feitos não apenas para ser funcionais, mas como anúncio ambulante do fabricante e da cultura de uma marca… Voltando aos fatos: com a fé de torcedor recuperada em 2002, fizemos as pazes com a família seleção. Rolou a festa. Durou o intervalo até a próxima tentativa, interrompida pela França, de novo. Sucederam-se 24 anos de fracassos, mesmo quando tínhamos três melhores do mundo em campo, ou quando éramos o palco e fomos humilhados pelo passeio alemão. Nada é igual mais, por óvbio. Eu mudei, o mundo mais ainda. Envelhecemos e viramos outra coisa, embolados pela rapidez e imediatismo do algoritmo e desanimados de um esporte do qual não somos mais donos, e cujos atores principais não se identificam mais com o povo como antes. Fato é que o futebol não me motiva tanto há alguns anos. Não dá buraco no estômago, muito menos enche o olho de água. Acompanho lá e cá, mesmo o meu Palmeiras e sua fase positiva, graças aos deuses boleiros. Mas quando chega a Copa do Mundo, não tem jeito. Se posso, assisto às partidas mais improváveis e me pego no clichê “não tem mais bobo no futebol”. Com o torneio inflado e times nacionais sem a menor expressão, as partidas da primeira fase nem sempre geram interesse. Até o que parecia ser só um jogo chato torna-se algo bem divertido, emotivo, atraente, interessante em sua dimensão das histórias humanas envolvidas. Outro dia, numa tarde fria, a TV ligada de som ambiente em uma das partidas, pus-me a pensar o que, com tantas ressalvas e um apreço menor por torcer, ainda faz esse evento ser tão interessante. Esse pensamento veio ao ver a repercussão sobre o goleiro Vozinha, o goleiro de 41 anos que ajudou a levar Cabo Verde à próxima fase do campeonato de seleções. O goleiro foi acolhido pela torcida brasileira ao ponto de catapultar de milhares para milhões o número de seguidores na rede social. Vendo aquele personagem tão bacana, um fofo, tive um insight. Gosto do futebol como entretenimento puro. Maratono a Copa do Mundo como faço com as séries do streaming que me cativam o suficiente para empilhar episódios até ver o fim de uma história em capítulos. É isso. A Copa do Mundo é a série pela qual espero quatro anos e, quando chega, me encho de dopamina, ou o que seja, vendo seus episódios, seu arco narrativo sendo construído e seus personagens desenvolvendo a sua "jornada do herói", termo cunhado para traduzir o esquema usado pela ficção para criar histórias realmente atrativas. A Copa do Mundo é absolute cinema! Se sonhar tá permitido, bem que podia ser um brasileiro a estrela a ganhar prêmio desse filme da vida real por seu desempenho nos gramados, né? Esse roteiro está em construção, na nossa frente. O grande final fica para os próximos EPs e aí está a graça. Vamos, então, aproveitar o que nos enche os olhos e reclamar do que merece ser criticado! (*) Marta Ferreira é jornalista

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