Com informações deturpadas sobre fatores jurídicos da imigração para a Espanha formou-se uma explosiva onda migratória de dezenas de milhares de jovens saindo do Marrocos em direção a Ceuta, um enclave espanhol situado no norte da África. Por trás dessa movimentação está a aflitiva situação dos jovens no Marrocos com desemprego juvenil elevado e a falta de perspectivas profissionais e de mobilidade social, como ocorre em várias nações que permaneceram no atraso. Ceuta fica a poucos quilômetros de distância e representa o solo da União Europeia em pleno continente africano. A travessia pode ser feita contornando os quebra-mares a nado ou a pé durante a maré baixa. A cidade de Ceuta entrou em colapso. Os jovens perceberam que não conseguiriam seguir para a Espanha continental sem documentação. Assim, a maioria dos migrantes (dezenas de milhares) acabou optando por retornar voluntariamente ao território marroquino. O acontecimento mais parece um alarme desesperado sobre o que está acontecendo com a humanidade, mas quem está olhando para isso? Milhares de jovens arriscando a própria vida por uma fresta de esperança, e a resposta global oscilou entre a burocracia e o esquecimento rápido. A sensação é de que a humanidade está falhando em enxergar o óbvio. A passagem da adolescência para a fase adulta é um intervalo decisivo na formação de caráter, mas os descuidos são seculares. A humanidade tem de se esforçar e evoluir para melhorar as condições gerais de vida. A transição para a idade adulta é justamente a fase em que o indivíduo precisa de estrutura, pertencimento e um horizonte de futuro para consolidar sua identidade. Quando uma sociedade falha em oferecer oportunidades para o desenvolvimento de seu povo surge a devastadora sensação de abandono e desperdício de potencial humano. A tecnologia, a economia e finanças e a infraestrutura do mundo evoluíram a passos largos, mas a maturidade ética e empática parece caminhar a passos lentos, quase estagnada. A grande "cegueira" global está na incapacidade de encarar a realidade sobre a finalidade da vida. As nações surgiram para oferecer bom preparo, educação de qualidade, emprego digno, espaço para as livres resoluções. Quando faltam esses fatores, imigrar pode se tornar a única saída. Uma situação lamentável. O desenvolvimento integral da juventude quase nunca esteve no topo das prioridades globais, a menos que essa juventude fosse necessária como mão de obra barata ou linha de frente em conflitos. Os jovens são mantidos fora da realidade, como se estivessem num parque de diversões. São gastos bilhões erguendo muros, reforçando patrulhas e criando leis punitivas, mas há falha no bom preparo das novas gerações, com educação digna e natural, saneamento básico nas regiões de origem, oportunidades para todos que se esforçam. (*) Benedicto Ismael Camargo Dutra é administrador.


