A arte de Hebe Maria Lacerda Albaneze nasceu bem antes dos primeiros traços no papel. Veio das paisagens pantaneiras, das lembranças da infância em Corumbá, dos animais e das referências culturais que ajudaram a construir sua identidade. Aos 90 anos, a artista visual se despediu no dia 1º de novembro, deixando uma trajetória marcada pelo amor à arte e por uma contribuição importante para a construção da identidade cultural de Mato Grosso do Sul. Além de retratar o Pantanal, Hebe procurou transformar em arte aquilo que carregava dentro de si. Em um texto autobiográfico, ela própria resumiu essa relação em uma frase. “Eu sou o Pantanal. Minha vivência é pantaneira, minha essência o mato”. A declaração ajuda a compreender o caminho artístico que a artista percorreu ao longo da vida. Nascida em Corumbá, quando a cidade ainda pertencia ao antigo Mato Grosso, Hebe cresceu cercada pela natureza. A ligação com a paisagem pantaneira permaneceu mesmo depois de deixar o Estado para estudar no Rio de Janeiro, onde iniciou o curso de Belas Artes e participou do ateliê da artista plástica Misabel Pedrosa, que trabalhava com xilogravura, pintura e desenho. Ao longo da carreira, Hebe participou de exposições em diferentes cidades brasileiras, como Cuiabá, Brasília e São Paulo. Também teve trabalhos selecionados para representar o Brasil em um salão de artes em Londres, onde foi premiada. Na década de 1970, conquistou reconhecimento em salões de arte paulistas. Mas foi no período pós-divisão do antigo Mato Grosso, diante da necessidade de construir uma identidade para o novo Estado, que seu trabalho ganhou ainda mais importância para a arte regional. Hebe aparece entre os nomes ligados ao movimento artístico que buscava traduzir Mato Grosso do Sul em uma linguagem própria. Ao lado de Mary Slessor, Índio (José Carlos da Silva) e Henrique Spengler, integrou o contexto de criação da Unidade Guaicuru, fundada também por Jonir Figueiredo e Adilson Schieffer. O grupo tinha como preocupação a valorização da cultura indígena e desenvolvia releituras cromáticas de símbolos e grafismos kadiwéu, terena e guarani. O trabalho ajudou a consolidar a vertente geométrica da tendência abstracionista no Estado, aproximando a produção artística das raízes culturais sul-mato-grossenses. Na obra de Hebe, elementos como o tuiuiú, o carandá e a cerâmica kadiwéu aparecem como referências de uma identidade que ela queria apresentar ao mundo sem limitar sua arte ao regionalismo. “Não faço uma arte folclórica. Quero falar uma língua mais universal”, escreveu a artista. Em sua descrição, Hebe dizia que desejava levar o paratudo para uma dimensão infinita, superior e cósmica, fazendo da paisagem pantaneira um caminho para falar também sobre a existência e a espiritualidade. Uma mulher de muitas dimensões – Para além das telas e exposições, Hebe também deixou lembranças de uma mulher que, segundo a filha caçula, Flávia Albaneze Silveira, era sensível, forte e amorosa. Mãe de três filhas, Graziela, Denise e Flávia, ela fez da própria casa um espaço de criação. O ateliê funcionava no ambiente familiar, onde as meninas cresceram acompanhando a mãe pintar e produzir suas obras. “Ela pintava na varanda de casa, o ateliê dela sempre foi em casa, no convívio com a gente. Tem fotos dela pintando quadro, com a gente por perto”, recorda Flávia. A relação com a arte também chegou às netas, Vitória, Manuela e Valentina. Mesmo quando a produção diminuiu, Hebe continuou pintando e compartilhando suas experiências com as meninas. Para a filha, a mãe tinha uma maneira muito particular de enxergar a vida. Estava sempre interessada em aprender, conhecer novidades e buscar crescimento pessoal, profissional e espiritual. “Ela era uma pessoa muito sensível, ao mesmo tempo muito forte e muito amorosa. Ela conseguia passar isso para a gente. Como mãe, sempre foi maravilhosa, muito carinhosa, muito amorosa e atenciosa”, conta. Flávia também se lembra da preocupação da artista com as pessoas e com as causas sociais. Durante o período em que o marido, também pai das três filhas, esteve à frente da Prefeitura de Corumbá, Hebe participou de ações de caráter humanitário, especialmente voltadas às crianças e às famílias em situação de vulnerabilidade. A natureza, que sempre esteve presente em sua arte, também era uma preocupação na vida cotidiana. Hebe acompanhava discussões sobre ecologia, preservação dos animais e proteção do Pantanal. Na época da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, produziu uma série de desenhos em referência ao momento histórico e à importância da preservação ambiental. Nos últimos anos, Hebe viveu em Cuiabá, onde recebeu os cuidados necessários diante das limitações provocadas pela idade e por um quadro de demência. Aos 90 anos, morreu após três dias de internação hospitalar. Para Flávia, apesar da tristeza da despedida, a partida da mãe foi marcada por uma tranquilidade que a família guarda com carinho. “Foi um dia tão lindo, o dia da partida dela. Um céu azul, foi na madrugada, aquele dia amanhecendo com muitos pássaros cantando. Foi triste para a gente, mas muito bonito, muito simbólico. Foi no Dia de Todos os Santos”, lembra. A filha descreve a despedida como uma passagem serena e encontra na memória da mãe uma imagem que traduz o sentimento da família. “Ela apagou assim como uma luzinha que se apaga e acende e ilumina. Acreditamos que ela esteja iluminando de outro lugar”, finaliza. Parte do acervo de Hebe Albaneze está preservada no MARCO (Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande.


