O medo de retaliação é um dos principais obstáculos para esclarecer homicídios sem autoria definida em Campo Grande. Em crimes de execução, nos quais os autores agem em poucos segundos, chegam ao local, atiram contra a vítima e fogem em seguida, o relato de quem viu a ação pode ser decisivo. Ainda assim, muitas testemunhas preferem não falar. A dificuldade foi apontada pelo delegado Caio Macedo, da DHPP (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios e de Proteção à Pessoa), unidade responsável pela investigação de homicídios sem autoria definida. “São vários os desafios, e eles se somam. Primeiro, a maioria desses crimes ocorre em regiões periféricas, onde a cobertura por câmeras de monitoramento é precária ou inexistente. Segundo, o medo de retaliação inibe fortemente o testemunho”. A sequência de homicídios registrada no fim de semana em Campo Grande chamou atenção pela dinâmica parecida. Em parte dos casos, os autores se aproximaram da vítima em motocicletas, atiraram e fugiram logo depois. Apesar da semelhança no modo de ação, a Polícia Civil afirma que, até o momento, não há elemento concreto que ligue os crimes entre si. Segundo Macedo, o uso de motocicletas em crimes de execução é comum porque facilita a aproximação e a fuga. Ele ressalta que a prática não é nova nem exclusiva da Capital. “O uso de motocicletas como meio de aproximação e fuga em homicídios é uma prática comum e comumente implementada pelos criminosos em crimes de execução. Não é novidade, nem exclusividade de Campo Grande”. A motocicleta também dificulta o trabalho investigativo. Além de permitir deslocamento rápido, o veículo consegue passar por locais estreitos, entre carros parados e por vias de difícil acesso. Outro problema é a identificação, já que a moto tem apenas uma placa, que pode ser escondida ou adulterada. Para o delegado, a escolha da motocicleta não é aleatória. Ela revela que os autores buscam um meio mais eficiente para se aproximar da vítima, executar o crime e deixar o local rapidamente. “Sim, o uso da motocicleta indica, no mínimo, uma escolha deliberada pelo meio mais eficiente para esse tipo de ação.” Outro obstáculo apontado por Macedo é o mercado informal das chamadas “motos BOB”, veículos sem registro regular que acabam fora do controle formal de propriedade. “Essas motocicletas circulam de mão em mão sem qualquer transferência formal de propriedade, tornando extremamente difícil rastrear quem é o real possuidor do veículo no momento do crime”. A apuração também é afetada pela circulação de armas no meio criminal. Segundo a polícia, elas podem ser repassadas logo após o crime, o que dificulta a ligação entre o objeto usado no ataque e o autor. O curto tempo da execução agrava esse cenário. “E, por fim, a própria velocidade da ação, que dura segundos, reduz drasticamente as evidências disponíveis”. Mesmo quando há pontos em comum entre os crimes, a Polícia Civil evita partir da ideia de que eles estejam conectados. A apuração começa de forma separada, para que eventuais vínculos sejam apontados por provas, não por coincidências na dinâmica. “A metodologia adotada pela Polícia Civil é tratar inicialmente cada homicídio como um fato independente. Isso evita conclusões precipitadas e garante uma apuração técnica baseada em evidências.” Caso surjam elementos em comum, como pessoas envolvidas nos mesmos conflitos, vínculos entre vítimas ou circunstâncias semelhantes, as linhas de investigação podem ser ajustadas. Por enquanto, no entanto, a polícia afirma que não identificou relação concreta entre os homicídios registrados no último fim de semana. Motivações distintas – De acordo com o delegado, o histórico das vítimas é um dos pontos analisados pela polícia, mas não define, sozinho, uma ligação entre os crimes. Em parte dos casos, há registros anteriores por delitos como tráfico de drogas, roubo, furto, porte ilegal de arma de fogo e até homicídio. “Algumas semelhanças podem ser observadas em determinados aspectos da dinâmica criminosa, especialmente o fato de que muitas das vítimas dos casos dessa natureza possuem histórico de envolvimento com atividades criminosas”. A análise mais aprofundada, segundo o delegado, leva em conta motivação, contexto, vínculos pessoais e circunstâncias específicas. Esses elementos variam de um caso para outro, o que impede a polícia de afirmar que exista um único padrão por trás dos homicídios recentes. As hipóteses investigadas também não apontam para uma causa única. Há casos relacionados a disputas pontuais por pontos de tráfico, outros com características de acerto de contas por dívidas ou desentendimentos no meio criminal e outros que indicam vingança. “Não há uma motivação predominante. O que as investigações têm revelado é uma diversidade de contextos”. Para a polícia, essa diversidade reforça que, neste momento, não há indicativo de uma ação coordenada ou de um único grupo atuando de forma sistemática. A avaliação é de que os crimes ocorreram em um curto intervalo de tempo, mas têm origens distintas. Risco localizado – Em crimes desse tipo, a escolha do momento e do local do ataque costuma indicar que os autores já tinham alguma noção sobre a rotina da vítima. Para a polícia, isso não significa uma preparação. “Isso não significa necessariamente uma vigilância, mas um mínimo de informação prévia é compatível com esse tipo de ação”. A possibilidade de retaliação também é considerada pela Polícia Civil, especialmente quando os crimes envolvem conflitos entre pessoas ou grupos ligados ao ambiente criminal. Conforme o delegado, porém, não há elementos que indiquem risco elevado para a população em geral. “O risco de retaliação é inerente ao ambiente criminal e sempre existe quando há conflitos entre grupos ou indivíduos”. Casos analisados – Diante da sequência de homicídios, a Polícia Civil afirma que mantém integração permanente com a Polícia Militar. No âmbito investigativo, a DHPP concentra esforços para identificar autores, executores, mandantes e circunstâncias relacionadas aos homicídios sem autoria definida. “A integração entre as forças de segurança é permanente e não depende de episódios específicos para acontecer”. Para apontar uma eventual ligação entre homicídios, a polícia cruza diferentes informações da investigação. A conexão só ganha força quando esses dados convergem de forma consistente, e não apenas porque os crimes parecem semelhantes à primeira vista. “A análise de correlação entre homicídios é feita a partir de um conjunto de elementos. Nenhum deles, isoladamente, é suficiente para estabelecer ou descartar uma vinculação”. A avaliação da Polícia Civil, neste momento, é de que a proximidade entre as datas não transforma os homicídios em uma sequência articulada. As investigações apontam para ocorrências separadas, com contextos próprios e sem vínculo concreto identificado até agora. “Com segurança e responsabilidade, podemos afirmar que Campo Grande não enfrenta uma onda de execuções conectadas. O que ocorreu foi uma coincidência temporal, casos distintos, com motivações distintas, que aconteceram em um curto intervalo de tempo”. Crimes do fim de semana – O primeiro caso ocorreu na noite de sábado (13), na praça Lucas de Andrade Cardoso, conhecida como Arena da Família, no Bairro Alves Pereira. Claudemar Ferreira Alves, de 36 anos, foi morto durante a transmissão de uma partida de futebol. Ainda no sábado, Guilherme Soares Gomes Oliveira, conhecido como “Garrafinha”, foi assassinado em frente ao Bar Tortuga, na esquina com a Rua Clineu da Costa Moraes, no Jardim Leblon. Segundo as informações do caso, o atirador se aproximou usando capacete com a viseira fechada. Guilherme tentou correr ao perceber que o suspeito estava armado, mas foi perseguido e atingido. Na madrugada de domingo, Renato Bravo da Cruz, de 40 anos, foi morto após bater na traseira do veículo de um suspeito em frente a uma conveniência na Avenida dos Cafezais, no Bairro Paulo Coelho Machado. Também no domingo, Renan Rodrigues Vaz, de 30 anos, morreu após ser agredido na casa onde morava, no Jardim Presidente. Câmeras de segurança registraram a movimentação em frente ao imóvel durante a madrugada. O quinto homicídio ocorreu na madrugada de segunda-feira (15), no Jardim das Macaúbas. Alessandro Souza Grefe, de 28 anos, foi encontrado morto em um terreno baldio na Rua São Pio de Pietrelcina, em frente à Escola Municipal Plínio Barbosa Martins. O suspeito é o ex-enteado da vítima, de 15 anos, que teria agido para defender a mãe.


