Alice era tão feliz que quis ser enterrada com alegria de mariachis

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No último aniversário, em 19 de maio, dona Alice Nunes Alcântara tinha um pedido simples: queria comemorar no Bob's. Aos 83 anos, escolheu passar a data comendo fast-food e uma das coisas de que mais gostava na vida: batata frita. Menos de um mês depois, a família se reuniu novamente. Mas desta vez para cumprir outro desejo que ela repetiu durante anos: nada de velório silencioso, triste ou cheio de drama. No lugar do luto tradicional, teve polca paraguaia, chamamé, mariachis, fogos de artifício e uma recomendação que os filhos, netos e amigos ouviram incontáveis vezes. "Pouco choro e muita música. Se alguém chorar, aumentem o som", dizia dona Alice, segundo o relato dos netos. E foi exatamente isso que aconteceu. Alice morreu deixando uma espécie de roteiro para a própria despedida. Os familiares já sabiam o que fazer porque ela nunca escondeu o que queria. Comunicativa, festeira e apaixonada por música, tratava a morte com a mesma leveza com que viveu. "Minha avó tratava a morte com muita leveza. Era uma mulher que amava viver e viveu com alegria, apesar das dificuldades. Sempre falava que, em seu velório, não queria tristeza, mas sim muita música e pouco choro", lembra o neto José Alcântara. Natural de Bela Vista, Alice cresceu frequentando bailes ao lado do pai. Foi ali que aprendeu a gostar de polca paraguaia, chamamé e das festas que atravessavam a madrugada. Mais tarde, já casada com Ramão Alcântara de Camargo, levou esse gosto pela música para a vida toda. "Ela era festeira. Gostava de música, de dança, de conversa, de movimento e de estar onde havia gente reunida. Isso fazia parte da personalidade dela, não apenas de uma lembrança do passado", conta José. A paixão pela música acompanhou Alice até os últimos anos. Mesmo depois de problemas de saúde que limitaram sua mobilidade e exigiram o uso de cadeira de rodas e andador, ela não perdeu o costume. "Mesmo que fosse apenas com a cabeça balançando ou o pé batendo, ela estava 'dançando' como podia", recorda o neto Leonardo da Mota Alcântara. A despedida teve vários momentos que pareciam ter saído diretamente de uma festa organizada por ela mesma. No cemitério, familiares e amigos foram recebidos pelos mariachis vindos de Pedro Juan Caballero e por uma salva de fogos. A irmã mais velha de Alice, Araci, de 90 anos, agradeceu aos filhos por terem seguido tudo exatamente como ela pediu. Segundo José, a tia repetia uma frase que a própria Alice costumava dizer: "Não quero tristeza, só alegria. Tudo o que eu quis vocês me proporcionaram em vida." Nem mesmo os parentes que moram longe deixaram de acompanhar. Uma irmã de Alice, residente no Rio Grande do Sul, chegou a pedir vídeos e áudios para conferir se as músicas escolhidas eram realmente as favoritas da caçula. O momento mais difícil para Leonardo aconteceu quando o caixão estava prestes a ser fechado. "Eu sabia que nunca mais veria o rosto dela, e naquele instante aumentei o volume da música, porque eu precisava muito chorar. Mas, mesmo chorando, eu não deixei de cumprir o que ela tinha pedido." A cena resume bem quem foi Alice. Dona de casa, mãe de quatro filhos, avó presente e bisavó de Maria Alice, de 10 anos, ela era conhecida pela personalidade forte, pelo humor fácil e pela necessidade quase permanente de estar perto das pessoas. Gostava de viajar, fazer crochê, jogar baralho com o neto e conversar com quem aparecesse pela frente. Falava português, espanhol e guarani, ensinava expressões aos familiares e fazia questão de acompanhar a vida acontecendo. "Ela gostava de 'ver gente'", resume José. Depois de uma grave internação durante a pandemia, ganhou dos profissionais de saúde um apelido que carregaria pelo resto da vida: Fênix. Contra muitas expectativas, voltou para casa, abandonou a cadeira de rodas, deixou o andador para trás e retomou a rotina. Voltou a viajar, visitar amigos, encontrar a família e colecionar histórias. Talvez por isso a despedida tenha sido tão diferente. Se para muita gente um velório é marcado pelo silêncio, para Alice ele precisava ter exatamente aquilo que ela mais gostava: música, família reunida e alegria. "Ela provavelmente não diria nada. Mas eu consigo imaginar ela dando vários gritos de euforia, daqueles que enchiam o ambiente, feliz por ver a família reunida, com música, alegria e amor", imagina Leonardo sobre o que a avó acharia do velório que teve.

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