Comunidade amanhece alagada, em condições que tornam impossível até ir à escola

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Se dias de frio e chuva já são difíceis em casas de alvenaria, em barracos feitos de paletes, eternit e lona a situação se agrava. Para famílias com crianças, manter a rotina escolar em meio à vulnerabilidade depende do tempo firme e de doações de cobertores e agasalhos. Na comunidade Vitória, na região do Jardim Los Angeles, o Campo Grande News encontrou todos os barracos fechados durante a manhã desta quarta-feira (24). Apesar das portas fechadas, era possível ouvir o som de televisores em algumas estruturas de madeira e, em alguns casos, até conversas. Como o local é irregular, uma ocupação urbana, a estrutura não chegou. Por volta das 7h, chamava atenção a ausência de alunos saindo para a escola. Uma moradora, que passou rapidamente pela equipe de reportagem, afirmou que muitas mães não enviaram os filhos porque o jogo da Seleção Brasileira faria com que eles fossem dispensados mais cedo. No barraco de Wanelle Fernandes, de 28 anos, a ausência dos filhos de 10 e 12 anos tem outro motivo. “Eles não estão indo para a escola desde a última chuva, porque molhou tudo. Molhou metade dos documentos da minha filha, as roupas e o material dos dois”, contou. Wanelle se refere à chuva registrada na sexta-feira (19), quando o acumulado foi de 14 milímetros. Desde então, Campo Grande tem registrado precipitações e queda nas temperaturas. Nesta quarta-feira, o dia mais frio da semana até o momento, a Capital teve sensação térmica de -2°C, com temperatura de 8,5°C, segundo o Inmet. Morando em um barraco com goteiras, Wanelle relata que, durante a noite, “parecia que ia congelar”. Para se aquecer, a família usou todos os cobertores disponíveis. Pela manhã, ela vestia casaco, calça e meias e, ainda assim, se movimentava durante a entrevista para tentar amenizar o frio. Dentro do barraco, a filha mais velha dormia em um espaço improvisado, completamente coberta, sem deixar nenhuma parte do corpo exposta, na tentativa de se manter aquecida. Às 8h, o menino tinha consulta marcada, e ela ainda decidia se o levaria enrolado na coberta ou se faltaria. “Usamos quatro cobertas, mas o frio continua do mesmo jeito. A gente vai levando, porque não tem o que fazer. Não tem para onde ir. Recebemos doações de cobertores e agasalhos esta semana, senão estaria pior. Não é fácil, ainda mais em um barraquinho de lona”, disse. Ela não foi a única a enfrentar roupas molhadas. Nos varais, era possível ver peças e cobertores ainda encharcados. Em frente a outro barraco, roupas estavam espalhadas pelo chão, provavelmente após a chuva intensa. O temporal desta madrugada, que acumulou 29 milímetros, agravou os alagamentos na comunidade. Um dos atingidos foi Geovane de Souza, de 25 anos, que mora com a esposa e os filhos de 2 e 4 anos. “Começou a alagar e entrou água dentro de casa. Quando chegou a dois palmos, saí com eles e levei para a casa da minha sogra. Eles estão lá desde sexta-feira. Só eu fiquei para não perder o barraco”, relatou. Segundo o ajudante de carga e descarga, móveis e roupas foram atingidos, inclusive a cama. “Consegui salvar algumas roupas, principalmente das crianças. Peguei casacos e peças de frio. Algumas molharam bastante, mas consegui salvar outras”. Já no barraco de Lucimeire Paredes, de 40 anos, a família consegue evitar goteiras e alagamentos, mas enfrenta o frio. Para se aquecer, ela dorme com a neta de 3 anos. Na última noite, usaram cinco mantas, deixando a criança praticamente invisível sob os cobertores. “Para enfrentar o frio, tem que ter bastante coberta. A gente coloca todos para dormirem juntos. Essa noite foi complicada. Mesmo com tudo isso, ainda faz frio. Tem que agasalhar bem, colocar meia, coberta”, disse. Sem agasalhos suficientes, Lucimeire recorre ao uniforme fornecido pela rede municipal para proteger as crianças. Segundo ela, as doações de cobertores e roupas feitas pela Defesa Civil e outras organizações são essenciais. “Se não tivesse as doações, nem sei como seria. Aqui é muito frio. Não sei se é por causa da água e do alagamento, mas é muito difícil”, afirmou. Como ajudar? – A Prefeitura de Campo Grande prorrogou até 31 de julho a Campanha do Agasalho 2026. A iniciativa, coordenada pelo FAC (Fundo de Apoio à Comunidade), já arrecadou milhares de peças desde abril e segue mobilizando órgãos públicos, empresas e a população em mais de 80 pontos de coleta espalhados pela Capital. As doações, que priorizam roupas masculinas, infantis, cobertores e calçados, são destinadas a famílias em situação de vulnerabilidade e instituições cadastradas. Segundo a prefeitura, as peças passam por triagem antes da distribuição, reforçando a rede de assistência social e ajudando a amenizar os impactos das baixas temperaturas.

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