No primeiro semestre deste ano, cerca de quatro pacientes pediram socorro a cada semana nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) de Campo Grande para se livrarem do vício em jogos de azar e apostas digitais, as bets. O dado é baseado em números da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde). A média semanal já é maior que a de 2025 e a de 2024. A tendência é que a quantidade total de pacientes atendidos até o final deste ano seja a maior dessa série. O psiquiatra Carlos Periotto, que já atendeu em uma dessas unidades, mas atualmente faz apenas consultas particulares, viu o número saltar nos últimos dois anos. “É catastrófico”, ele anuncia. “A cada semana aparece um paciente, é assustador”, reforça o médico. Colegas dele relatam ritmo semelhante de atendimentos em seus consultórios. Parte das bets apela por apostas no resultado dos jogos de futebol. Questionado se o período de Copa do Mundo tem aumentado a busca por ajuda, ele responde que não. “A sensação que a gente tem é que existe uma epidemia no Brasil descontrolada, sem um período específico. As pessoas sendo bombardeadas o tempo todo com anúncios”, completa. Classe social e sintomas – Carlos confirma que os efeitos na vida de quem aposta compulsivamente são piores entre as pessoas mais pobres. “A maioria deve para o banco, para agiota. Esse é um problema que desestrutura a família e pode levar ao suicídio”, cita. A regulamentação das bets e a popularização das apostas pela internet, com publicidade massiva, tornaram esse mercado mais expressivo e mais nocivo às pessoas com perfil obsessivo. Segundo o médico, esse é um tipo de vício parecido com a dependência química. “Ela tem sintomas de dependência comportamental. Quer ir atrás do prazer de jogar, da fantasia da recompensa, da grana prometida. Ela tem a fissura, o desejo, a memória do jogo. Fica procurando. Se fica entediada, entra no celular e a fantasia volta”, descreve o especialista, que também é professor no curso de pós-graduação em Psiquiatria da Afya Educação Médica. O diagnóstico desses casos pode ser chamado de jogo patológico, ludopatia ou transtorno de jogo. Pode vir acompanhado de depressão, ansiedade e outras formas de sofrimento mental. A ausência de uma linha de atendimento e de unidade especializada nisso é o que preocupa o psiquiatra. “Nem na rede particular nós temos isso”, ele frisa. Tratamento – Carlos explica que medicamentos para ajudar no controle dos sintomas de descontrole e terapias são as principais ferramentas para auxiliar o paciente a sair do vício. Podem ser receitados antidepressivos, calmantes e anticonvulsivantes. Todos exigem receita médica. Autoexclusão – O médico recomenda que os pacientes comecem o tratamento utilizando a plataforma de autoexclusão do Governo Federal para pararem de apostar. Ela foi criada em dezembro do ano passado pelo Ministério da Fazenda e registrou mais de 570 mil cadastros em todo o País até maio deste ano. O sistema permite que o cidadão bloqueie voluntariamente o próprio CPF em todas as bets regularizadas.

