Treinando para maratona em Dubai, Mariana virou mãe de trigêmeas

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Treinando para correr a Maratona de Dubai, a sul-mato-grossense Mariana Barbosa de Jesus, de 37 anos, imaginava que viveria nos Emirados Árabes um período mais tranquilo, quase um “ano sabático”. Personal trainer, professora de yoga e mestra reikiana, ela mantinha a rotina de treinos, dava aulas online e tentava se adaptar à vida longe do Brasil. Tudo mudou quando entrou em uma consulta médica e saiu de lá sabendo que seria mãe de trigêmeas. Tudo de forma natural, sem fertilização e sem qualquer preparo para engravidar. “Nem ácido fólico eu tinha tomado. Eu estava treinando para a maratona, tomei vinho dias antes e estava tudo certo”, relembra, ainda surpresa com a rapidez com que a vida mudou. Natural de Mato Grosso do Sul, Mariana se mudou para Abu Dhabi depois que o marido lutador Nicholas Favaretto foi contratado para atuar em um projeto de jiu-jítsu dentro do exército e das escolas dos Emirados. O esporte é extremamente valorizado no país, que convida professores brasileiros para formar militares e estudantes. Os dois se conheceram no fim de 2019 e, em apenas 45 dias, decidiram se casar. O plano inicial era passar um período fora do Brasil, mas a pandemia acabou adiando tudo. Foi só no ano passado que ela finalmente desembarcou nos Emirados, já com a possibilidade de trabalhar remotamente e viver uma rotina menos acelerada. A mudança, no entanto, trouxe desafios que iam além da adaptação ao idioma e à cultura. “O que mais me impactou foi o bioma. Aqui você vê areia, areia, areia. Não tem o verde que a gente está acostumado no Brasil”, conta. Apesar das diferenças culturais, Mariana diz que nunca sofreu preconceito. Ainda assim, precisou aprender a lidar com os costumes locais. “Às vezes eu me sentia desconfortável de estar muito exposta, porque as mulheres estão todas cobertas. Então, por respeito, em vários momentos eu saía com meu xale também.” “Maybe three” A descoberta da gravidez aconteceu de forma inesperada. Mariana teve pequenos sangramentos e decidiu procurar atendimento médico. Ela acreditava que faria apenas exames iniciais, mas o obstetra resolveu fazer um ultrassom na hora. “O médico falou: ‘Two babies’. Depois ele parou, olhou de novo e disse: ‘Maybe three’.” Naquele instante, o susto tomou conta da sala. Com seis para sete semanas de gestação, já era possível ver os três embriões e os corações batendo. “Não teve aquele momento leve de ‘ai, estamos grávidos’. Foi um choque. Mas ao mesmo tempo eu me senti muito privilegiada. Muitas mulheres tentam por anos engravidar e não conseguem. Eu já me sentia mãe das três ali.” Uma equipe especializada em medicina fetal passou a acompanhar a gravidez em um hospital de referência para casos raros nos Emirados. O médico responsável, o jordaniano Mohammed, criou uma relação próxima com o casal, usando tradutores e aplicativos para se comunicar em português. “O plano de saúde cobriu absolutamente tudo. Foi excelência do começo ao fim”, afirma Mariana. Mesmo feliz, ela conta que escolheu viver a gestação de forma reservada. Parte disso vinha do receio em relação ao novo emprego do marido e também do medo natural de uma gravidez tão delicada. “Eu pensava: será que meu corpo consegue sustentar essas três vidas?” Acostumada a uma rotina intensa de exercícios desde a adolescência, Mariana precisou desacelerar. O corpo pedia descanso, mas a mente seguia acelerada. “Eu gastava mais energia no duelo mental do que no exercício em si”, admite. Com o passar dos meses, ela começou a enxergar a experiência de outra forma. O país, antes apenas uma oportunidade profissional, virou também um lugar onde imaginava criar as filhas. “Aqui eu nunca me senti insegura. Sabendo que eram três meninas, eu pensei: preciso fazer o possível para elas crescerem em um lugar seguro.” A fase mais difícil As trigêmeas nasceram prematuras e precisaram passar pela UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neonatal. A última a receber alta foi Alma, que ficou internada por 86 dias. Mariana descreve esse período como o mais duro de toda a jornada. O pós-parto, segundo ela, quase passou despercebido diante da intensidade emocional de deixar as filhas no hospital todos os dias. “O mais difícil foi ir para casa sem as meninas”, resume. Sem rede de apoio próxima, ela enfrentou a rotina praticamente sozinha enquanto o marido seguia trabalhando normalmente. “Pegava táxi, ia para o hospital, ficava o dia inteiro lá, voltava para casa e seguia na rotina de ordenha. Isso foi intenso.” Mesmo nos momentos mais difíceis, o humor acabou virando ferramenta de sobrevivência. “Sorrir é sempre o melhor remédio. Acho que ver o lado positivo das coisas faz parte da minha essência”, diz. “Elas são emiradenses pantaneiras” Hoje, Mariana divide a rotina entre mamadeiras, cuidados com as meninas e a saudade do Brasil. A família pretende manter as tradições brasileiras dentro de casa, mesmo vivendo em um país árabe. “O churrasquinho de domingo tem que existir. A feijoada não é completa porque não tem carne de porco, mas o feijão preto ajuda a matar a saudade”, brinca. Ela faz questão de reforçar às filhas, mesmo ainda pequenas, que nascer nos Emirados não apaga as raízes brasileiras. “Elas não são árabes, são pantaneiras. Eu falo que são emiradenses pantaneiras.” Ao olhar para trás, Mariana diz que entende que cada etapa parecia impossível enquanto acontecia. Mas hoje, com as três em casa, a sensação é de gratidão. “O amor não foi dividido. Foi multiplicado”, finaliza. Quem quiser acompanhar um pouco da rotina dessa mãe nos Emirados Arábes, Mariana mostra sua jornada no perfil @marijijesus

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