Antes mesmo de chegar, Ana já ganhou quarto, roupas e uma família

Brasil Geral Mato Grosso do Sul Notícias Últimas notícias

A camiseta branca estampada com a frase “Eu sou mãe da Ana Elisa” chamava atenção entre os participantes da caminhada pelo Dia Nacional da Adoção, realizada na manhã deste domingo (24), na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande. Cercada pela família inteira, a empreendedora Erica Benites de Souza, de 40 anos, ainda não conhece a filha que aguarda na fila da adoção, mas já reorganizou a casa e os sentimentos para recebê-la. “O quartinho dela já está sendo preparado, ela já ganhou presentes e doações de roupas. A chegada dela já mudou toda a família, uniu ainda mais todo mundo”, contou emocionada. Entre crianças correndo, abraços, camisetas personalizadas e famílias caminhando juntas, o evento promovido pelo TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) acabou se tornando um encontro de histórias marcadas pela mesma palavra: espera. Espera pelo telefonema do fórum. Pela primeira visita. Pela construção de vínculo. Pela chegada definitiva de alguém que, mesmo antes do encontro, já passa a ocupar espaço dentro de casa. Mãe de dois filhos biológicos, Erica conta que o desejo da adoção começou ainda na adolescência e permaneceu mesmo depois da separação do ex-marido. “Estamos aqui para apoiar o projeto e incentivar mais pessoas a adotar. Ainda existe muito preconceito. Nós ouvimos perguntas como ‘vai pegar filho dos outros?’ e comentários sobre genética”, relatou. Hoje, ela aguarda a chegada de Ana, perfil escolhido no processo de adoção: uma menina de até 3 anos, inclusive com possibilidade de doenças tratáveis. “Ela já é nossa filha. Ainda não a conhecemos, mas já amamos ela sem saber cor, idade ou qualquer outra coisa.” A ansiedade vivida pela família lembra a trajetória da administradora Márcia Aparecida Soares Rodrigues Soares, de 57 anos, que caminhava pelo evento segurando a mão da filha Ana Clara, hoje com 19 anos. Mas até elas chegarem ali, houve uma longa espera. Márcia conta que ela e o marido iniciaram o processo de adoção já depois dos 40 anos. O casal fez curso, buscou informações no fórum, passou pela habilitação e entrou na fila querendo exatamente o perfil mais procurado pelas famílias brasileiras. “Pedimos uma criança de até 2 anos, quanto menor, melhor”, relembrou. Os anos passaram sem resposta. Foram cerca de cinco anos aguardando uma ligação. Até que o fórum entrou em contato explicando que seria difícil encontrar uma criança naquele perfil e perguntou se o casal aceitaria conhecer outras possibilidades, inclusive por meio do apadrinhamento afetivo. Foi assim que Ana Clara apareceu. Na época, ela tinha 7 anos e vivia havia cerca de cinco anos em abrigo. Márcia lembra que encontrou uma menina extremamente carente, mas ao mesmo tempo receptiva e alegre. O primeiro encontro aconteceu em um café. “Foi muito especial. Depois disso, não quisemos conhecer mais ninguém. Foi amor à primeira vista.” A aproximação aconteceu aos poucos. Entre outubro e dezembro de 2014, Ana Clara passou a frequentar a casa da família todos os fins de semana. Depois do recesso do Judiciário, em janeiro, a guarda definitiva foi oficializada. “Desde então, ela nunca mais voltou para o abrigo.” Hoje, Ana Clara cursa veterinária, já fez curso de modelo e, segundo Márcia, se tornou inspiração para outras pessoas que desejam adotar. “Uma pessoa que trabalha com ela conheceu nossa história, se interessou pelo processo e já está em contato com o fórum”, contou. As histórias das duas famílias acabam se encontrando justamente em uma das maiores discussões sobre adoção no Brasil: o perfil desejado pelos pretendentes. Durante a caminhada, a juíza Katia Katybraun explicou que a maioria das famílias ainda procura bebês ou crianças pequenas, enquanto crianças maiores, grupos de irmãos e crianças com deficiência acabam permanecendo mais tempo nos abrigos. Segundo ela, atualmente 157 crianças aguardam por uma família em Mato Grosso do Sul. “A adoção também pode ser plena com crianças maiores. Temos inúmeros casos de adoções bem-sucedidas nesses perfis”, afirmou. A presidente do IBDFAM/MS (Instituto Brasileiro de Direito das Famílias e Sucessões), Ana Maria Medeiros, disse que a caminhada nasceu justamente para ampliar esse debate e enfrentar preconceitos ainda muito presentes na sociedade. Ela acompanha casos de adoção nacional e internacional há décadas e lembra que muitos medos ainda surgem da falta de informação. “Os grupos de apoio ajudam muito nisso, compartilhando experiências e incentivando a adoção”, afirmou. Foi justamente em um grupo e no contato com outras famílias que muitas pessoas presentes disseram encontrar acolhimento durante o processo. A analista financeira Ilisandra dos Santos Queiroz, de 44 anos, lembra exatamente a data em que entrou oficialmente na fila da adoção: 24 de maio de 2018. “Para nós, essa data é especial porque foi o dia em que entramos na fila para a chegada do nosso filho.” Ela conta que o processo exigiu preparo emocional, entrevistas com assistente social, psicóloga e avaliação judicial antes da habilitação definitiva. “O processo é o tempo necessário para a chegada do filho”, resumiu. Depois da habilitação, porém, a espera foi curta. Menos de dois meses depois, veio a ligação que mudou completamente a vida da família. “O fórum avisou que havia nascido uma criança dentro do nosso perfil.” Como o bebê era recém-nascido, ela e o marido acompanharam tudo desde o hospital até a alta médica. “Foi uma virada total na nossa vida.” Presidente do Geaav (Grupo de Apoio à Adoção), Camila Amorim Dias Baruffi acredita que histórias compartilhadas durante eventos como a caminhada ajudam a desconstruir a ideia de que os vínculos familiares dependem apenas da biologia. Mãe adotiva, ela falou emocionada sobre a própria experiência. “Falar sobre adoção é falar sobre amor, pertencimento, acolhimento e novas oportunidades", relatou. Segundo Camila, muitas famílias descobrem no processo adotivo que o vínculo é criado na convivência diária. Já o defensor público Edson Cardoso, coordenador do NudeCA (Núcleo de Defesa e Proteção da Família, da Criança e do Adolescente), destacou que estimular a adoção significa garantir que crianças acolhidas possam crescer em ambiente saudável e com vínculos afetivos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *