Uma barcaça carregada de minério de ferro afundou no Rio Paraguai, em Porto Esperança, região de Corumbá. A água ficou avermelhada perto da embarcação e a extensão de um eventual dano ambiental ainda está em avaliação. O acidente ocorreu num terminal em operação, no mesmo trecho em que o governo federal discute a concessão da Hidrovia do Paraguai para organizar o transporte de cargas. É uma oportunidade de cobrar, antes do leilão, respostas para um problema que já existe. A Marinha investiga as causas do afundamento. O Imasul coleta amostras em diferentes pontos do rio, acima e abaixo do local do acidente. O Ibama avalia, entre outros riscos, a dispersão de partículas e a deposição de minério no leito, onde o material pode afetar organismos aquáticos. A LHG Mining, que opera o terminal, informou que a barcaça era de um armador parceiro e que seu monitoramento não identificou alterações na qualidade da água associadas ao episódio. Cabe aos órgãos públicos divulgar os resultados das análises e esclarecer se houve dano, qual foi sua extensão e que providências serão necessárias. No Pantanal, a água tem seu próprio ritmo. Segundo a Embrapa, a pouca inclinação da planície faz com que a água que cai nas cabeceiras do Paraguai possa levar quatro meses ou mais para atravessar o bioma. A corrente varia de um trecho para outro e conforme a época do ano. Em áreas de escoamento lento, partículas podem se depositar no fundo e exigir acompanhamento mesmo depois que a água recupera a cor habitual. Por isso, a avaliação precisa alcançar também os sedimentos. O transporte fluvial tem importância para a economia de Mato Grosso do Sul. A concessão pode ajudar a disciplinar uma navegação que já existe entre Corumbá e a foz do Rio Apa, em Porto Murtinho. Para cumprir esse papel, o projeto precisa estabelecer limites de operação compatíveis com o nível do rio, fiscalização das condições das embarcações e regras de segurança no carregamento. Os estudos também devem considerar os efeitos do tráfego, dos terminais e de eventuais dragagens em conjunto, na cheia e na seca. O acidente em Porto Esperança também obriga a fazer perguntas concretas. Quanto tempo uma equipe equipada leva para chegar a um terminal distante? Quem avisa as comunidades ribeirinhas se houver risco para a pesca ou para o uso da água? Quem acompanha a retirada da carga para evitar que a própria operação amplie o impacto? Essas respostas precisam estar nos planos de emergência, com responsabilidades definidas, prazos e exercícios regulares. Em Corumbá, a primeira obrigação é concluir a apuração, publicar os laudos e cobrar reparação se houver dano comprovado. Para a hidrovia, a obrigação começa antes da assinatura do contrato. A capacidade de transportar mais carga só pode avançar na medida em que houver capacidade demonstrada de prevenir acidentes, fiscalizar a operação e responder a uma emergência no Pantanal.

