Brigadistas Kadiwéu compartilham saberes tradicionais sobre o uso do fogo

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Antes de acender qualquer chama, é preciso observar a paisagem, identificar onde a vegetação seca se acumulou, compreender a direção dos ventos, reconhecer áreas mais vulneráveis e lembrar os locais onde historicamente começam os grandes incêndios. Na Terra Indígena Kadiwéu, a 430 km de Campo Grande, esse conhecimento do território é uma das principais ferramentas usadas pelos brigadistas na prevenção de incêndios. A experiência dos Kadiwéu foi compartilhada hoje durante a segunda edição dos Dias de Campo: Resgate do Uso Tradicional do Fogo no Pantanal, realizada em Corumbá, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. O encontro reúne brigadistas indígenas e de comunidades tradicionais, produtores rurais, pesquisadores, bombeiros e gestores ambientais para debater estratégias de manejo do fogo e prevenção de incêndios florestais. Entre os participantes está o brigadista indígena Kadiwéu Rubens Ferraz, que atua diretamente no planejamento das queimas prescritas realizadas dentro do território indígena. Segundo ele, o trabalho começa muito antes da execução das ações de manejo. “Na nossa queima, não fazemos nem aceiro. O brigadista precisa conhecer o território e ter certeza de que aquele fogo vai morrer na borda. A gente sabe quais são os lugares onde normalmente começam os grandes incêndios e trabalha antes para reduzir essa vegetação acumulada”, explica. A prática consiste em realizar queimadas planejadas em períodos e condições adequadas para reduzir o volume de material seco que pode alimentar incêndios de grandes proporções durante a estiagem. O método integra conhecimentos transmitidos entre gerações e observações construídas a partir da convivência diária com o território. Grandes incêndios – O Pantanal ainda enfrenta os reflexos dos incêndios registrados nos últimos anos. Em 2020, cerca de 4 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo. Em 2024, mais de 2 milhões de hectares queimaram no bioma, reacendendo o debate sobre estratégias de prevenção e manejo. Durante o encontro, especialistas destacaram que o conhecimento acumulado por povos indígenas e comunidades tradicionais tem contribuído para ampliar a compreensão sobre o papel do fogo em ecossistemas como o Pantanal e o Cerrado. Fogo bom – O pesquisador Filipe Tamiozzo, coordenador do Laboratório de Incêndios Florestais da Universidade Federal de Viçosa, afirmou que durante décadas predominou a visão de que todo uso do fogo era necessariamente prejudicial, o que acabou reduzindo o espaço para práticas tradicionais de manejo. “A política do fogo zero durou mais de 50 anos e tirou de muitas pessoas a capacidade que elas tinham de trabalhar e transformar seus territórios relacionados ao uso do fogo”, afirmou durante a abertura do evento. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .

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