Não era segredo para colegas de trabalho que João Augusto Borges, de 22 anos, estava descontente com a relação e dizia que queria “passar a mulher”. A frase era recorrente, segundo depoimento de uma testemunha. Ela contou que perguntava o que o rapaz faria com a filha dele, Sophie, de 10 meses. “Vai junto”. Os dois trabalhavam juntos, como estoquistas, em uma distribuidora de bebidas. Welison Matheus foi a segunda testemunha de acusação a prestar depoimento no julgamento de João Augusto, acusado de duplo feminicídio e ocultação de cadáver. A sessão está sendo realizada na 2ª Vara do Tribunal do Júri, em Campo Grande. O depoimento de Welison foi prestado sem a presença do réu na sala, a pedido da testemunha. Questionado pela promotora Luciana de Amaral Rabelo, sobre quem havia contado os planos, respondeu: “Foi ele mesmo, foi o João”. A primeira abordagem ocorreu no ambiente de trabalho. “Ele chegou em mim primeiro. Eu tava trabalhando, ele chegou em mim e perguntou quem que fazia o corre”, relatou. Ao ser perguntado sobre que tipo de “corre” a que João se referia, a testemunha explicou. “Corre de passar pessoa, matar pessoa. Aí larguei mão, fui trabalhar. No dia seguinte, ele falou de novo que queria matar a esposa, que não deixava fazer nada. Eu não acreditei, mas ele continuou falando nessa história”, afirmou. Segundo a testemunha, no dia do crime, João retornou atrasado do horário de almoço e disse que o plano havia sido executado. “Passou o horário do almoço dele, ele chegou atrasado, aí a primeira coisa que ele falou pra mim: ‘tá feito’”, contou. Welison disse que o réu voltou ao trabalho entre 17h e 18h, com sinais de lesões. “Chegou falando que tava feito, tava todo machucado, vermelho”, declarou. Ao ser questionado sobre ferimentos, completou: “O pescoço dele tava todo arranhado”. Welison afirmou que João pediu para ir a um posto de saúde fazer curativo, mas não retornou ao trabalho. Depois, passou a ligar e mandar mensagens. “Na ligação eu não atendi, mas por mensagem ele falou que o corpo tava no carro, que já tava começando a feder, perguntando onde que eu tava”, disse. Conforme a testemunha, João queria ajuda para ocultar os corpos. “Ele queria que eu ajudasse a queimar o corpo”, relatou. A promotora perguntou se Welison sabia de mais alguém que tivesse ajudado. Ele respondeu que não. “Ele não comentou nada. No outro dia ele sumiu e eu só vi a notícia”, afirmou. Segundo o estoquista, João também chegou a falar sobre o plano com outros colegas. “Ele começou com amigos do trabalho”, disse. Ao todo, conforme a testemunha, oito pessoas trabalhavam no local. O estoquista contou que ninguém acionou a polícia porque os colegas não acreditaram que João realmente cometeria o crime. “Ninguém acreditou. Mas no outro dia eu mostrei as conversas pro gerente”, afirmou. Segundo ele, o motivo alegado por João era que Vanessa não o deixava fazer o que queria. “Ele falava que a mulher não deixava fazer nada, jogar videogame, jogar bola. Ele falava que pegou raiva”, declarou. Welison disse que o colega chegou a oferecer o carro como pagamento pelo crime. “Nas mensagens, sim, disse que me dava o carro”, afirmou. Questionado se aceitou, respondeu: “Não”. Ao ser perguntado especificamente sobre Sophie, Welison disse que João também mencionava a criança. “Ele falou que ia passar a mulher dele, e perguntei da filha, ele falou que ‘vai junto’”, relatou. A testemunha disse ainda que chegou a se oferecer para ficar com a bebê, mas que não levou a ameaça a sério. “Eu até me ofereci pra ficar com a criança, mas não acreditava”, afirmou. Ainda segundo Wellinton, as falas sobre matar Vanessa eram antigas e recorrentes. “Essa conversa é antiga, ele falava isso sempre”, disse. Ele afirmou que conheceu Vanessa em uma festa do trabalho, para onde João a levou uma vez. Sobre o comportamento do réu na empresa, contou que ele inicialmente era considerado bom funcionário. “No começo ele trabalhou bem, patrão até elogiou, ele trabalhava bem, chegava no horário”, relatou. Ao assistente de acusação Lucas Brandolis, Wellinton declarou que João acreditava que sairia impune. “Ele falava pra mim que ia ser perfeito o plano, que ninguém ia saber, que ia dar certo”, disse. A defesa não fez perguntas à testemunha.Parte superior do formulário Após o testemunho das duas testemunhas de acusação, a sessão foi interrompida. Acusação – O crime aconteceu em 26 de maio de 2025, em Campo Grande. Segundo a investigação, Vanessa Eugênia Medeiros e a filha Sophie foram mortas por João durante o horário de almoço dele. Depois, ele voltou ao trabalho e, mais tarde, levou os corpos no porta-malas do carro até uma área de mata no Indubrasil, onde as vítimas foram deixadas e incendiadas. Elas foram encontradas durante a madrugada por um vigilante, que acionou a PM (Polícia Militar). João foi denunciado pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) por duplo feminicídio qualificado e ocultação/ destruição de cadáveres.

