Em defesa das causas fracas
Esse animal de origem divina, homenageado pelo próprio Homero, convive com o homem, partilhando de sua mesa e de seu alimento. Suas asas, delicadas como os tecidos indianos, tornam-se iridescentes sob o sol, lembrando as penas do pavão… O Elogio da mosca, de Luciano de Samósata, é uma demonstração de virtuosismo descritivo. O zelo naturalista do autor atrai, em certas passagens, um olhar sério para o objeto. Mas, naturalmente, é o domínio da ironia que confere interesse a esse pequeno divertimento. Parodiando os lugares-comuns do gênero encomiástico, compondo um delicado mosaico de referências literárias e mitológicas, ele evidencia o lado artificioso dos belos discursos e desafia um arraigado preconceito a favor da gravidade: o texto torna-se tão mais atraente quanto sabemos que a causa tem relevância nula. Segundo Vladimir Jankélévitch, o espírito da ironia é o espírito da distensão, possível apenas quando há um relaxamento da “urgência vital”. Como a arte, ela é um oásis em plena vi..
Continue Reading
