Um barulho forte no blindex de uma unidade operacional da PRF (Polícia Rodoviária Federal) chamou a atenção de Patricia Ferroni Nogueira, de 56 anos, no fim de um plantão. Do lado de fora, uma graúna, também conhecida como pássaro-preto, estava caída após bater contra o vidro. A ave ficou cerca de seis minutos praticamente sem reação. Veterinária de formação e policial rodoviária federal há 13 anos, Patricia decidiu tentar ajudá-la. O momento foi gravado por um colega, e o vídeo mostra desde os cuidados até a comemoração da policial quando o passarinho consegue voar novamente. “Estávamos quase encerrando o plantão, e foi um barulho horrível, parecia uma tijolada na porta. Ele ficou uns seis minutos sem muita reação. O vídeo está bem resumido.” Segundo Patricia, aves costumam circular pelas unidades operacionais porque fazem ninhos nas coberturas de pista e, eventualmente, acabam colidindo contra os vidros. Após encontrar a graúna caída, ela começou os primeiros socorros e acompanhou, aos poucos, os sinais de reação. “Daí fui fazendo os procedimentos de primeiros socorros. Sou veterinária de formação, mas qualquer pessoa instintivamente pode fazer. Massagem cardíaca, respiração ‘boca a bico’. Ele foi reagindo. Mexeu os pezinhos, depois o bico e… voou.” É justamente esse último momento que explica a reação de Patricia no vídeo. Assim que a ave levanta voo, ela abre um sorriso e comemora junto com o colega que fazia a gravação. “Foi muito lindo, meu coração pulou de alegria. O colega Gomidi estava fazendo o vídeo e também ficou muito emocionado.” PRF e passarinheira – O que o vídeo não mostra é que a relação de Patrícia com as aves começou muito antes desse resgate. Há dez anos, ela pratica observação de aves e já registrou aproximadamente 850 espécies em viagens por diferentes regiões do Brasil. “A observação de aves é uma terapia de conexão com a natureza. Comecei há uns dez anos para ter esses momentos de foco total no agora, e essa atividade traz isso.” Os registros são publicados no WikiAves, plataforma colaborativa dedicada à observação de aves. Patricia conta que, com o tempo, aprendeu a reconhecer boa parte das espécies não apenas pela aparência, mas também pelo canto. “A observação de aves é, sem dúvida, um exercício dos sentidos e do foco. É maravilhoso e, no MS, temos uma riqueza de espécies.” A câmera também costuma acompanhá-la durante o expediente. Trabalhando nas rodovias, ela encontra aves com frequência e aproveita as oportunidades para observar ou fotografar. “Eu conheço boa parte das aves pelo canto, sim, e estou sempre com a câmera por perto. Inclusive no trabalho, porque estamos sempre pelas estradas e eles estão por toda parte. A atenção está em tudo ao redor, por isso o policial da pista é um observador habilidoso. Ainda mais após 13 anos na profissão.” Para Patricia, a observação de aves também funciona como contraponto à rotina policial. Enquanto o trabalho exige atenção constante ao que acontece nas rodovias, o hobby exige silêncio, paciência e concentração. “Acho que, em tempos de telas e conexão obrigatória, momentos de contemplação podem fazer a diferença entre equilíbrio emocional e estresse. Abrir os olhos para o entorno e ver quanta vida nos cerca nos faz perceber que somos parte de algo gigantesco e estamos aqui para somar, nos grandes e pequenos gestos, desde salvar vidas humanas nas rodovias até salvar um passarinho, né?” Para ela, o episódio também resume a forma como enxerga a relação com os animais e o trabalho que exerce. “Quem pode dizer o valor de uma vida? Vida é vida, não importa onde esteja!”


