“Se não fosse o remédio, eu nem estaria conversando com você”. Foi com essa frase que o reciclador Gerson Duarte Montenegro, de 33 anos, resumiu a mudança que ele atribui ao uso da cannabis medicinal durante uma audiência pública realizada nesta quarta-feira (17), na Câmara Municipal de Campo Grande. O debate discutiu os desafios para ampliar o acesso gratuito a tratamentos à base da planta pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Morador de Campo Grande, Gerson contou que convive desde a infância com crises de epilepsia e ansiedade. Há dez anos, após sofrer um acidente de moto, passou a enfrentar também dores constantes pelo corpo. Segundo ele, a rotina era marcada pelo uso de diversos medicamentos fornecidos pelo CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Há seis meses, após orientação do psiquiatra que o acompanha, ele iniciou o tratamento com óleo de cannabis obtido gratuitamente por meio da Associação Divina Flor. Atualmente, utiliza THC (Tetraidrocanabinol) e CBD (Canabidiol) em gotas, três vezes ao dia. Antes de eu fazer o uso da cannabis medicinal, eu tinha muitas crises. Agora melhoraram as dores e a epilepsia. Tomo três vezes ao dia e consigo trabalhar normalmente. Antes eu tinha muita dor na costela; hoje eu tenho uma melhor qualidade de vida, graças ao remédio”, relatou Gerson. Gerson participou da audiência acompanhado da esposa, Patrícia Beatriz Nunes da Costa, de 37 anos, e da filha do casal, de 4 anos. Também recicladora, Patrícia afirmou que acompanhou de perto as mudanças provocadas pelo tratamento. “Antes dele fazer o tratamento, ele tinha comportamento alterado e era antissocial, e agora mudou muito”, contou. Segundo ela, o casal ingressou na Justiça para obter autorização para o cultivo doméstico da planta e participou de cursos promovidos pela associação sobre cultivo, manuseio e extração da cannabis medicinal. Patrícia também comparou a atual rotina do marido ao período em que ele fazia uso de medicamentos convencionais. “Antes ele tomava um coquetel oferecido pelo Caps, que impossibilitava ele de trabalhar. Ele ficava dopado. Hoje ele tem uma vida muito melhor e consegue conviver com as outras pessoas”, afirmou. “É um remédio muito santo”, complementou. Na Capital, a Associação Divina Flor é uma das poucas que trabalham para facilitar o acesso ao canabidiol para tratamento médico. Segundo a diretora da entidade, Fátima Carvalho, a associação atende atualmente cerca de 600 pessoas, muitas delas em situação de vulnerabilidade social. Fátima explica que o custo da medicação ainda é um dos principais obstáculos para os pacientes. Dependendo da formulação, os valores variam entre R$ 150 e R$ 500 por frasco, podendo ser ainda maiores em alguns casos. A associação também mantém parceria com a Fiocruz em Mato Grosso do Sul. O pesquisador em saúde pública Aron Carlos Cotrim explicou que os trabalhos serão divididos em 3 frentes: estudo da genética das plantas, análise fitoquímica dos compostos produzidos e capacitação de pacientes e profissionais de saúde. “Esses projetos ainda estão em fase inicial porque dependem de autorizações da Anvisa”, explicou. Cautela científica – Durante a audiência, especialistas defenderam a ampliação do acesso aos tratamentos, mas ressaltaram a necessidade de respaldo científico para cada indicação. Professora da Faculdade de Medicina da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e pesquisadora da Fiocruz, Claudia Bocage explicou que a cannabis medicinal ganhou visibilidade principalmente por causa dos resultados observados em casos de epilepsia refratária infantil. “Por conta da demanda reprimida por muito tempo, há uma expectativa de que muitas indicações possam ser beneficiadas. A gente precisa ter um pouco de cautela nisso”, ponderou Claudia. Segundo ela, existem evidências científicas mais consolidadas para alguns grupos específicos de pacientes. Além da epilepsia infantil, estudos apontam benefícios para sintomas relacionados ao tratamento oncológico, como náuseas, perda de apetite e emagrecimento. “A gente fala de dor, mas é um espectro muito grande, relacionado a diversas condições. Alguns estudos mostram algum grau de evidência. Aos poucos, vamos caminhando e vendo as aplicações da cannabis sendo comprovadas cientificamente”, afirmou Claudia. Cannabis como política pública – Autor da audiência pública, o vereador Jean Ferreira (PT) defendeu a criação de mecanismos que ampliem o acesso à cannabis medicinal por meio do sistema público de saúde. Segundo ele, Mato Grosso do Sul já possui legislação estadual relacionada ao tema e agora a discussão avança para o âmbito municipal. Na Câmara, tramita projeto de lei de sua autoria que cria o Programa Municipal de Cannabis Medicinal, prevendo o fornecimento gratuito de produtos à base da planta mediante prescrição médica. “A gente espera que com essa audiência seja quebrado esse preconceito e que se diferencie a questão medicinal do uso recreativo”, afirmou Jean. O debate também reuniu familiares de pacientes que utilizam o tratamento. O vereador Beto Avelar (PP) relatou a experiência do próprio filho, Roberto de Avelar Júnior, de 35 anos, que está em estado neurovegetativo desde 2022. Segundo ele, mesmo com autorização judicial para acesso ao canabidiol, a família enfrenta dificuldades para obter a medicação. “A cannabis tem feito bem para o meu filho, especialmente para os espasmos. Só que, mesmo com a autorização, temos dificuldade na aquisição”, relatou Beto.

